Literatura Fantástica Brasileira

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Literatura de entretenimento?

literatura de entretenimento


Por Equipe Literatura Fantástica Brasileira.

Ultimamente muito tem se falado sobre literatura de entretenimento, inclusive há matérias publicadas aqui que atacam impiedosamente esse gênero, embora de forma subliminar, sem que seu nome seja mencionado.

Literatura fantástica, literatura hot, chick lit, etc, podem ser enquadradas como literatura de entretenimento, ainda que cada gênero seja voltado à públicos distintos.

Lógico que, entre os milhares de leitores do blog, surgem os que são contrários às opiniões aqui veiculadas e os que concordam com elas, mas na ausência de uma matéria voltada exclusivamente a esse tipo de literatura (até mesmo porque o blog se refere à literatura fantástica) eu decidi escrever uma sobre o assunto, em nome de toda a equipe.

Não é um tratado sobre o gênero, apenas uma explicação sobre o que ele compreende e representa e nossa opinião sobre o assunto.

A literatura de entretenimento é um tipo, ou gênero, de literatura mais palatável ao grande público, voltado ao seu anseio por uma história mais leve, facilmente digestiva, de leitura simples e descomplicada, muitas vezes despretensiosa, mas que possui um enredo atraente e criativo.

Como exemplos desse tipo literário cito Harry Potter, Percy Jackson, Crônicas de Nárnia, entre tantos outros.

Porém, nem todas as obras que possuem essas características são dotadas de mesma pretensão e qualidade.

Muitas delas não levam o leitor a crescer internamente e o aliena das grandes questões humanas, filosóficas e sociais, tendo como único objetivo angariar fundos financeiros ao autor e à editora, e na nossa opinião, fazer o leitor perder tempo com uma leitura que nada lhe acrescenta.

Ok, cada um é dono de si e usa seu tempo da forma que achar melhor, mas para nós é perda de tempo, é nossa opinião.

Em obras desse tipo seus responsáveis têm como alvo os leitores mais simplórios e ingênuos, e que devido à precária educação literária recebida não se atentam à estética literária, são incapazes de dar valor ou compreender à uma literatura mais complexa, contentando-se com obras como Crepúsculo, A cabana, A Última Música, etc.

É muito comum o desprezo pela dita literatura de entretenimento, de um modo geral, pelo fato de ela não abordar temas considerados relevantes e muitas vezes apresentar temas já muito batidos e, quando não, um linguajar de médio ou baixo escalão, tornando-a vulgarizada.

Literatura hot e chick lit, por mais que os fãs esperneiem, estão nesse patamar literário, de linguagem parca, voltadas exclusivamente ao erótico, ao mundano, dificilmente transmitindo ao leitor valores ou assuntos reflexivos, servindo apenas para o entretenimento, a masturbação e nada mais.

Muitos dizem que esse tipo de literatura, a de entretenimento, desvalorizou o livro como obra de arte, de ferramenta de denúncia ou espaço para experimentação, catarse ou reflexão, transformando-o em um mero objeto de lazer utilizado para se preencher momentos ociosos, as horas vagas.

O problema é que, embora classificadas como de entretenimento, nem todas as obras possuem esse aspecto negativo, há obras com conteúdo relevante, portanto não se pode generalizar.

Por exemplo: Crônica de Nárnia e Crepúsculo, quem já leu as duas obras percebe a diferença existente entre elas.

Uma passa valores ao leitor, o induz à reflexão, enquanto a outra não passa de mero entretenimento vazio e fútil.

Dá para entender o que estamos explicando? É possível perceber as diferenças entre os dois trabalhos?

Embora pertencentes ao mesmo tipo de literatura, possuem relevância diferente, ou seja: não dá para considerar todo tipo de literatura de entretenimento como lixo, há trabalhos de qualidade.

Mas pode-se dizer que mesmo as obras de conteúdo vazio também possuem seu papel dentro da literatura, por incrível que pareça.

O lado benéfico da literatura de entretenimento é que graças a ela muitos jovens estão se interessando pela literatura, indo atrás de livros, lotando bienais, e isso é ótimo, desde que esses leitores não fiquem acomodados.

Sim, acomodados, porque o grande risco que se corre é o de os leitores desse tipo de livros nunca evoluírem, ficando estacionados, ou seja, que os leitores de Crepúsculo sejam sempre leitores de, no máximo, 50 Tons de Cinza, nada mais, não se interessando por obras de maior profundidade, seja por gosto ou pela incapacidade de compreender sua linguagem.

O importante é que o gênero seja somente uma porta de entrada para a literatura, atraindo novos leitores, mas que com o tempo eles se interessem pela leitura considerada mais erudita, reflexiva, edificante.

O triste é que na verdade o Brasil não é um país de leitores e haja a necessidade de se utilizar dessas obras chulas para se atrair a atenção para os livros.

Muitas crianças e adolescentes não têm o exemplo da leitura em suas casas, seus pais não leem, e, nas escolas, onde para muitos se inicia o hábito da leitura, as aulas de literatura acabam se concentrando nos autores canônicos ou regionalistas, cuja linguagem sofisticada e de difícil assimilação acaba afastando-os dos livros.

A leitura acaba sendo encarada como algo enfadonho, monótono e complicado pelo simples fato dos jovens não serem apresentados às obras mais palatáveis, simples, simpáticas, com temáticas mais condizentes com sua realidade, sua mentalidade e quem consegue isso? Os crepúsculos da vida, nem tanto pelos livros, mas pela adaptação feita para o cinema que acaba por aguçar a curiosidade dos jovens para o conteúdo original.

Harry Potter, por exemplo, sempre será mais interessante para as crianças e adolescentes do que um “Olhai os Lírios do Campo” e o processo é o mesmo: primeiro vem o interesse pelo trabalho audiovisual, para em seguida vir o pelos livros.

No entanto não se pode dizer que Harry seja melhor que Lírios, ou vice e versa, cada uma delas possui seus valores, sua função e público próprios, mas é inegável o fato de haver um precipício literário entre elas, ainda que ambas sejam importantes.

Harry Potter é um chamariz, uma ferramenta para atrair a atração de crianças e jovens para literatura.

Já a obra de Érico Veríssimo só deve ser apresentada depois, e talvez bem depois, a esses leitores, evitando assim traumatiza-los. Porém, sua introdução é necessária, para que os leitores não se mantenham presos unicamente à literatura de entretenimento.

Resumindo: embora muitos livros da chamada agora literatura de entretenimento não sejam dos mais bem escritos, é o que muitas pessoas têm como primeiro contato com a leitura. Mas ela não pode ser considerada como destino final, mas sim uma porta de entrada, a considerada literatura erudita sim deve ser o destino final do leitor, e jamais deve ser posta de lado, esquecida.

Mas, surge então, outro aspecto que não pode ser ignorado: a elite (muitas vezes formada por pseudointelectuais) se constitui como a maioria dos grupos humanos: compartilham entre si certos valores que os diferenciam dos outros e que faz com que sintam-se superiores aos demais, principalmente ao “povão”.

Estes valores, atualmente, compreendem uma leitura hermética, pouco acessível, logo, o que não vai de encontro ao que julgam relevante, ao que faz parte da sua preferência, é visto com menosprezo e colocado em segunda plano, sendo considerado inferior, de segunda classe, e quem aprecia esse tipo de leitura consequentemente acaba sendo visto da mesma forma.

Porém, o que hoje pode ser considerado como literatura erudita, como Dom Quixote e Balzac, por exemplo, já foram literaturas bem populares e comerciais e, se na época houvesse esse rótulo, seriam qualificadas como literatura de entretenimento.

Na nossa opinião toda leitura é válida, mas há literatura de entretenimento, popular, que é muito pueril e ruim, vazia, assim como há na “literatura erudita” muitos trabalhos com muita enrolação e quase nenhum conteúdo, porém, cada uma possui seu papel e todas devem ser levadas em consideração.

Cada um tem a liberdade de ler o que quiser, assim como o autor tem o de criar aquilo que bem entender, o que não se pode aceitar é que Machado de Assis seja colocado no mesmo patamar que um André Vianco, por exemplo. 

Ambos possuem suas qualidades e defeitos, mas são destinados a públicos diferentes e, conforme explicamos, possuem funções distintas no mundo literário.

A pergunta que fica é, caso você sejam um autor: que tipo de obra você pretende ou tem a capacidade de escrever? Ou melhor: que tipo de obra os leitores esperam de você? Ou, ainda melhor: que tipo de livro seu editor quer que você escreva?


Entre em contato: litfanbr@gmail.com


2 comentários:

  1. Vamos objetivamente às respostas, com base nas perguntas feitas no último parágrado do excelente texto:
    1. Eu escrevo crônicas, alguns poemas e, principalmente, contos, urbanos e realistas, voltados para o público adulto, em que o drama da vida diária, dos relacionamentos são expostos com uma roupagem que vai do dramalhão mexicano a à ironia deslavada.
    2. Os leitores (poucos,porém fiéis) esperam isto mesmo de mim. É o que gosto de fazer. Por exemplo: se eu quiser enveredar pela literatura fantástica, sairá um lixo, com certeza, embora admire o escritor que embarque nessa viagem e consiga levar consigo o leitor.
    3. Por último, as editoras (salvo raras exceções) estão "andando" para o meu tipo de literatura. Quase ninguém investe em escritor desconhecido. Agora, pagando, até o Tiririca vira autor. Aliás, creio que nem precise pagar, dado o número de eleitores. Imagina que "plataforma" maravilhosa. Tudo o que as editoras querem. Saudações literárias!

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  2. Falando exclusivamente como leitora, não acho que a literatura dita "de entretenimento" seja o grande problema, afinal, muitos autores considerados clássicos hoje foram entretenimento puro em sua época, como Charles Dickens, um "wattpader" de seu tempo. Acredito que o buraco seja mais embaixo.

    Passa pela educação, que em nosso país - particularmente falando - é péssima. O ensino de Literatura, que força o aluno a ler, e não o estimula a ler por gosto. A falta do hábito da leitura fora do livro determinado pela escola. A falta de boa vontade das editoras em investir em bons autores, mas investir apenas no que "está bombando". Autopublicações realizadas por autores sem o mínimo de talento ou senso crítico, e que querem apenas faturar em cima do que vende no momento. A falta de uma cara própria da literatura nacional.

    Vejo muita gente criticar a literatura de entretenimento, mas vejo pouco feito para mudar as questões que expus acima. É mais fácil meter o pau no livro excessivamente popular do que encarar os problemas de frente.

    Não que eu seja uma defensora de livros ruins, muito pelo contrário. Até hoje eu tento entender como livros tão ruins como a série "50 Tons" e afins se tornaram tão populares. Mas também vejo muita gente metida a intelectual batendo no peito e dizendo coisas como "só leio Dostoiéviski" e não entender todas as camadas contidas na obra, apenas pelo status de vender-se como leitor de obras clássicas e "difíceis".

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